ORIGEM DO NOME "BIGUAÇU": A insistência de não oficializar uma versão definitiva
Por Ozias Alves Jr.





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Nas escolas de Biguaçu, ainda se ensina que "Biguaçu" significa "Biguá Grande", mesmo tendo essa teoria sido desmentida por um longo e minuncioso estudo publicado pelo Biguaçu em Foco em 1998 no qual contou com o parecer do maior especialista de línguas indígenas do Brasil, profº Aryon Dall'Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília.

Não se sabe se por preguiça, por ignorância, por incompetência ou pela danada da inveja, a secretaria municipal de educação até o momento não se deu ao trabalho de, pelo menos, mandar constituir uma comissão de intelectuais (quem sabe de universidades como UFSC e Univali) para dar um parecer oficial sobre a origem do nome "Biguaçu". O cômico é estar ensinando às crianças uma versão já contestada por duas pesquisas sérias ou, quando menos, ensinar três teorias tão divergentes uma da outra para o nome "Biguaçu", um nó na cabeça dos estudantes.

Três são as teorias para a origem do nome "Biguaçu". A primeira, a popular, é a de o nome significa "Biguá Grande". A segunda é do falecido padre Raulino Reitz (1919-1990). Em seu livro "Alto Biguaçu: uma narrativa cultural tetrarracial"(1988), Reitz contestou a versão de que "Biguaçu" vem do nome de uma ave. Seu argumento é que não existe nem o "Biguá grande" (BIGUaçu) e muito menos o "Biguá Pequeno" (Biguá Mirim). Só há uma espécie dessa ave conhecida pelo nome geral de "Biguá". O pássaro "biguaçu" não existe, de acordo com Reitz, baseando-se no fato de que, nos dicionários de zoologia, só há referência a uma só ave chamada "Biguá". Não há referência a outras espécies de "biguás". Ora, se existisse o "Bigua AÇU", então existiria o "Biguá MIRIM", não é lógico?

TEORIA DA ÁRVORE- Reitz apresentou outra teoria. Segundo ele, "biguaçu" é o nome para a árvore conhecida também por "baguaçu", que dá um fruto roxo-escuro semelhante ao jambolão. Em Biguaçu, a árvore citada é chamada comumente de "baguaçu"; já na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, é conhecida por "biguaçu".

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Até aí tudo bem. Mas um detalhe dado pelo próprio Reitz derrubou sua própria teoria, sem ele ter percebido-se disso na época em que escreveu seu livro. O "baguaçu" ou "biguaçu" é uma árvore oriunda da Ásia, ou seja, chegou ao Brasil trazida pelos portugueses. Esta árvore tem valor comercial nenhum. Se "biguaçu" tivesse seu nome originário dessa árvore, então os imigrantes açorianos que aportaram na região em 1748 teriam derrubado a floresta nativa para plantar uma infinidade de árvores "biguaçu" que a região passou a ser conhecida como "terra das árvores biguaçu" ou "biguaçu"? Não se sustenta na lógica. Se a árvore não tem valor comercial, para que os açorianos iriam derrubar a floresta para plantar um monte de "biguaçus"? Feijão, mandioca, milho, cana-de-açúcar, café, ainda vai por sua óbvia lógica comercial, mas "biguaçus"?!

Se não tivesse algum documento que desse alguma pista sobre a verdade dos fatos, a discussão se o nome "biguaçu" vinha do pássaro ou de uma árvore certamente iria longe. Mas um documento pôs pá de cal nas duas teorias anteriores. O documento estava debaixo dos narizes de todos aqueles que conheciam um pouco mais sobre a história de Biguaçu.

DOCUMENTO - Trata-se de primeiro registro de terras de Biguaçu datado de 1753. Iaponan Soares transcreveu parte do dito documento, cujo original encontra-se no arquivo público do estado, em Florianópolis, em seu livro "História do Município de Biguaçu (1988)". Lá estava escrito. O rio "Biguaçu" chamava-se "rio de Embigoasú". Assim mesmo, conforme a grafia do século XVIII. O documento data de 1753, isto é, cinco anos depois que os primeiros açorianos chegaram nas terras de "Biguaçu".

"Embigoasú". Ali estava a chave da solução do enigma. Mas que significa "embigoasú"? Como ocorreu a transformação do nome "Embiogoasú" para "Biguaçu"? A segunda pergunta pode ser respondida por um simples exemplo de fonética. Se dissermos: "vamos lá em Embigoasú". O que poderia acontecer com uma frase dessa com dois "em" um ao lado do outro? Simples. A tendência é "comer" um dos "em". Com o tempo, o povo pronunciaria "vamos lá em bigoasú". Daí não ser difícil chegar à conclusão lógica de como "Embigoasú" virou ao longo do tempo em "Biguaçu".

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Já com relação à primeira pergunta, a resposta sobre o significado de "embigoasú" não se consegue numa rápida consulta no dicionário "tupi-português" ou no "guarani-português" (vale lembrar que os índios carijós do litoral catarinense falavam guarani, uma língua prima do tupi, isto é, ambos idiomas são compreensíveis entre si e compartilham uma infinidade de vocábulos iguais tais como no dicionário de espanhol encontra-se uma multidão de palavras iguais às do português). Por que não se consegue achar "embigoasú" no dicionário tupi ou guarani? Simples. A palavra original- no tupi ou no guarani antigo- não era "embigoasú"; esta era o aportuguesamento do termo original.

FONÉTICA - Antes de responder, vale a pena dar alguns exemplos que podem ilustrar bem o problema. "Tijucas" e Camboriú" são palavras indígenas. Se for procurar no dicionário de tupi, o leitor não conseguirá achar "Tijucas" e "Camboriú". Mas se procurar "tyycá" e "camuri ý", o leitor certamente encontrará. "Tyycá" é a palavra original tupi que significa "lama" ou "barro" e que virou no português "Tijucas". Já "camuri ý" ("rio dos Robalos") foi aportuguesado para "Camboriú". Vale lembrar que o "camuri ý" ganhou um "b" na pronúncia aportuguesada. Mas como? Isso vem de uma pronúncia do guarani para o "m" que soa a "mb" nasalizado, isto é, "camuri ý" pronuncia-se como "ca" + "mbu"+ "ri" + ý". ou seja, é preciso saber o idioma ou ser especialista para detectar esses detalhes minunciosos de origem de palavras. Afinal, dicionários de alto nível são escritos por intelectuais de vastíssimo saber e, fazendo um trocadilho com um provérbio popular, "com mais horas de leitura que urubu de vôo".

Voltando à origem do nome "Embigoasú", o "ý" que se encontra nas palavras "tyycá"(Tijucas) e "camuri ý" (Camboriú) também encontra-se na origem de "embigoasú". Vale lembrar que o "ý", também escrito como "ÿ" (como na grafia acadêmica de dialetos guaranis, entre eles o mbyá, dos índios de São Miguel, Biguaçu), é um som que não existe em português. É um misto de "i" e "u" pronunciado como se estivesse levando um soco na barriga- "uuu!!!!".

"Embigoasú" vem de "embi" + "goasu". "Embi" é o aportuguesamento de "guambý" (cerca); o "ý" soa como o "uuu!!!", aquele do já citado soco na barriga!. Já "goasú", significa "grande". Portanto, "embigoasú" é o aportuguesamento de "Guam goasú" (Cerca Grande). "Guambý" virou "embi" na pronúncia portuguesa.

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Por Ozias Alves Jr.



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No extenso e minuncioso artigo publicado pelo Biguaçu em Foco em junho de 1998 com o detalhamento da origem do nome "Biguaçu", foi explicado como o "ý" do tupi e guarani virou "u" e "i" na pronúncia do português.

EMBIGOASU - Na época, foram dados três exemplos de cidade e rio respectivamente com a mesma origem de "Biguaçu". Em São Paulo, existe duas cidades. Uma se chama "Embú". Fica na entrada de São Paulo capital. Outra é "embu mirim". "Embú" vem de "guambý" (cerca). O "ý" virou "u" em São Paulo; já aqui em Biguaçu, o "ý" do "guambý" transformou-se em "i" (embi) e a palavra misturada com "goasú" (embigoasú), evoluiu e virou "Biguaçu". E não fica por aí. No Paraná, existe um rio que se chama "Boguaçu". Ele se origina de "Emboguaçu", que também significa "Cerca Grande". O "ý" do "guambý" não virou "i" ou "u", mas "o" no Paraná.

O leitor quer mais outro exemplo de transformações do "ý"? Existe uma cidade no Rio de Janeiro que se chama "Guaratiba"; já no Paraná há um município de nome "Guaratuba". Ambas vem do tupi "guará týba" (onde tem muitas garças). "Guará" é uma famosa garça vermelha que quase foi extinta. Hoje ainda existe esse lindo pássaro, do qual os pajés tupis extraiam penas para seus cocares e mantas rituais, na região de Cubatão (SP). O "ý" de "Guará Tyba" virou "i" no Rio de Janeiro e "u" no Paraná.

ESPECIALISTA - Todas essas explicações foram dadas pelo professor Aryon Dall'Igna Rodrigues, doutor em fonologia tupi por uma universidade da Alemanha. Dr. Aryon dedicou sua vida ao estudo das línguas indígenas. É tido com a maior autoridade mundial em línguas indígenas brasileiras. Vale ressaltar que no atualmente melhor livro que ensina tupi-guarani intitulado "Método Moderno de Tupi Antigo" (publicado em 1998 pela editora Vozes), obra de elevada erudição e didatismo escrita por um talentosíssimo professor da Universidade de São Paulo(USP), Eduardo de Almeida Navarro, há a seguinte dedicatória ao professor Aryon: "Ao Prof. Dr. Aryon Dall'Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, com quem mais aprendi sobre a Língua Brasília (tupi) e que, com mão de mestre, guiou-me pelos caminhos de seu estudo. Se este livro tiver méritos, eles são todos seus".

Se o leitor tiver curiosidade em saber mais sobre o professor Aryon Dall'Igna Rodrigues, pesquise na internet e encontrará uma infinidade de artigos dele sobre linguística indígena, todos com vasta erudição. Foi este o cidadão consultado e a ele deve-se o mérito do desvendamento da origem do nome "Biguaçu".

DESAFIO - Apresentar qualquer nova teoria sempre é alvo de controvérsias. É natural. Por isso, lanço o desafio à secretaria municipal de educação: constituir uma comissão de intelectuais universitários para dar um parecer oficial à origem do nome "Biguaçu". Provem, se poderem e se conseguirem, que "Biguaçu" significa mesmo "Biguá Grande", como se vem ensinando nas escolas públicas. Se não conseguirem provar isso, é um é um desserviço à cultura de Biguaçu insistir em ensinar às crianças uma versão errada sobre a origem do nome "Biguaçu" só por não ter competência de contestar com dados científicos.